Matrescência – A palavra que vai mudar a tua maternidade
Acredito que quando damos um nome a uma experiência pela qual passámos, conseguimos compreendermo-nos melhor e ser mais compassivas e gentis para connosco, e por isso, hoje trago-te um termo que me ajudou a reconciliar com partes da minha vivência inicial da maternidade.
UM POUCO DA HISTÓRIA...
Os meus primeiros tempos como mãe foram, tal como sei que para tantas outras, uma avalanche de mudanças e transformações…
O meu corpo estava a mudar e as minhas prioridades também. A forma de sentir as coisas e de observar o mundo já não era a mesma e as minhas relações mais próximas mudaram de dinâmica e outras afastadas recuperaram o sentido.
Foram muitos os momentos em que me senti a pior pessoa na face da terra, seja porque não estava a sentir a maternidade como a melhor coisa do mundo, ou porque não me reconhecia em diversas partes que até aí faziam parte de mim.
A intensidade com que senti tudo, a montanha de ambivalência, a desconexão de mim mesma e dos outros, os sentimentos de culpa e de me sentir “má” ou profundamente só, fizeram parte dos primeiros anos da minha experiência da maternidade. E isto, repetiu-se a cada filho, mesmo que com menos intensidade.
Nessa fase calei para o exterior as vozes internas que me diziam que não era boa mãe, que não tinha sido talhada para isto, que devia de haver alguma coisa de estranho comigo porque sentia as coisas da forma como sentia, e era o contrário do que me fizeram acreditar que deveria ser… Muitas vezes me senti interiormente comida pela vergonha.
E afinal, não era apenas as hormonas, a falta de sono ou uma possível falta de qualquer coisa em mim. Não, tudo aquilo que eu sentia na pele, vivia, questionava na minha cabeça se seria normal e não conseguia pôr em palavras, tinha um nome…MATRESCÊNCIA.
O QUE É A MATRESCÊNCIA?
O termo vem do Inglês “Matrescence” e foi cunhado em 1973 por uma antropóloga e defensora da amamentação, Dana Raphael. Curiosamente, foi também ela que cunhou o termo “Doula”, para as pessoas que apoiam a Mãe na sua matrescência, e, felizmente, este já é hoje um termo mais difundido e a trazer benefícios para as mães.
Matrescência é o processo de te tornares mãe. É o conjunto de transformações físicas, psicológicas, emocionais, sociais e espirituais que as mulheres passam quando se tornam mães.
É um processo profundo que mexe as todos os níveis e é unico a cada mãe porque não é sentido da mesma forma por todas. Além de mais, sim, repete-se a cada filho, e não tem um período estipulado para terminar, porque a fase mais intensa pode até ser nos meses seguintes a trazer um bebé para casa, mas a fase de adaptação, amadurecimento e evolução, é sentida para o resto da vida.
Lamentavelmente, a nossa sociedade vê tudo como só “mudanças hormonais” e coisas de ser recém-mãe. É tudo visto de uma forma tão banal, que é desvalorizado e já nem é dada importância a toda a tensão, pressão, stress e mudanças gigantescas a diversos níveis que as mães experienciam. Similar à adolescência
Não é por acaso que se parece ao termo – Adolescência – .
Ora lembra-te dos teus primeiros tempos enquanto mãe:
O teu corpo muda rapidamente, assim como as tuas preferências, as tuas escolhas, o teu sentido de identidade. A tua confiança em ti mesma é abalada. Questionas-te. As tuas relações mudam (até mesmo com os teus pais) e a tua postura perante essas mesmas relações e o mundo também. Sentes-te só. Oscilas entre felicidade extrema e dúvidas existenciais…
Parecido com a adolescência não?!??!??
A verdade é que até mesmo as mudanças que se dão no cérebro das mães, a nível de forma e estrutura, durante a gravidez, pós-parto e nos primeiros meses que sucedem ao nascimento do bebé, são tão significativas como num adolescente.
O processo de transição experimentado pela mulher quando se torna mãe, pode ser tão avassalador e intenso como a adolescência.
E por isso mesmo, assim como há tanta consciência e amparo para as transformações na adolescência, é essencial que se traga o mesmo entendimento, respeito, compaixão, acolhimento e apoio para as mulheres no seu processo de se tornarem mães.
E por fim o que podes fazer?
Ao conhecer e entender este termo, senti-me compreendida e consegui dar sentido a tudo o que vivi.
Afinal, havia um termo para tudo aquilo que tinha vivido quando me tornei mãe.
Consegui fazer as pazes com a imagem depreciativa que tive de mim mesma por ter vivido as coisas da forma tão intensa como as senti, e por me ter recriminado e culpado tanto na altura.
E o que eu quero procuro com esta partilha é que tu também te ACOLHAS na tua experiência:
Se hoje, estás naquela fase em que te começas a sentir dividida entre duas partes tuas, em que não te sentes plenamente no teu novo papel, mas também já não te reconheces a mesma, em que percebes que esse papel redefine todas as outras áreas da tua vida, ou em que olhas para o teu corpo com estranheza de todos os ângulos, ou já percebes que as tuas relações mais próximas estão a mudar as dinâmicas, reformula a tua forma de pensar, e sabe que não te estás a afundar na maternidade, mas sim a transitar para uma nova versão de ti mesma que vai precisar de espaço e tempo para se ir descobrindo numa nova mulher.
Se por sua vez, tal como eu, reviste em flashback tudo aquilo que passaste e nem sempre conseguiste pôr em palavras – emoções, dúvidas, lágrimas – ou todas as vezes em que duvidaste de ti mesma e da tua capacidade de ser esse papel, faz as pazes contigo mesma, conforta-te e sabe que afinal o “problema” não eras tu. Tudo faz parte do processo de te tornares Mãe.
Com carinho,
Elisabete
